Um olhar de avô: testemunhando a genialidade e os desafios do meu neto
Deixo vocês entrarem na minha vida por um instante. Sou avô de um menino de 8 anos, autista, que todos os dias me surpreende e me ensina sobre o mundo de uma forma que nenhum livro jamais poderia.
Enquanto escrevo, lembro das cenas que se repetem em nossa casa: ele sentado ou andando em frente à TV, dedinhos ágeis dançando sobre o controle remoto com uma rapidez que até hoje me deixa boquiaberto.
Seus vídeos? Raramente passam de alguns segundos — é como se seu cérebro processasse, absorvesse e precisasse do próximo estímulo numa velocidade que nós, adultos neurotípicos, mal conseguimos acompanhar.
Mas não pense que é só tecnologia. Pergunte a ele sobre capitais. Qualquer uma. “Qual é a capital do Mato Grosso do Sul?” A resposta vem na ponta da língua, sem hesitar. “Campo Grande“.
Desafie com um país distante, “Qual é a capital da Eslovênia?”. Prontamente: “Liubliana“. Seu conhecimento geográfico é impressionantemente enciclopédico, e o brilho nos olhos ao responder mostra o prazer genuíno que sente em dominar esses saberes.
Ao mesmo tempo, observo seu corpinho franzinho e ágil: ele anda na ponta dos pés quase o dia inteiro. É como se o mundo exigisse que ele se elevasse, que criasse uma pequena distância do chão. E só “baixa o pé” os calcanhares quando pedimos, num esforço consciente que revela o quanto seu corpo processa o ambiente de forma única.
Esse menino é uma bencão de Deus, que me mostrou, na prática, que o autismo não é uma linha reta de dificuldades, mas sim um emaranhado complexo de hipersensibilidades, hiperfocos, desafios e dons extraordinários.
E é a partir desse lugar — de avô, de observador atento, de alguém que aprende diariamente — que quero convidar você a mergulhar num tema que atravessa a vida do meu neto e de tantos que conheço, e de tantas outras pessoas no espectro: a ansiedade e seus gatilhos.
A ansiedade é uma companheira frequente e silenciosa para muitas pessoas no espectro autista.
Mais do que uma simples preocupação passageira, trata-se de uma resposta intensa do organismo a estímulos internos e externos. Para construir uma sociedade mais empática e inclusiva, é fundamental mergulhar na compreensão desses gatilhos.
Muitas vezes, o cenário se torna ainda mais complexo quando há um diagnóstico concomitante de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), uma condição que, assim como o autismo, molda a forma como o cérebro processa o mundo.
Quando falamos em deficit de atencao e hiperatividade, estamos entrando em um território que, embora distinto, frequentemente se sobrepõe ao autismo.
Estima-se que uma parcela significativa de pessoas autistas também apresente características de tdha (outra sigla comumente utilizada para o transtorno), criando um perfil neurológico único que exige atenção redobrada. É nessa intersecção que a ansiedade pode encontrar terreno fértil para se desenvolver. 🔗 Canals et al. (2024) – 32,8%
Vamos explorar os oito gatilhos mais comuns e entender como eles se manifestam:
1. Mudanças na Rotina: O Conforto do Previsível
Para a mente autista, a rotina não é uma mera escolha, mas sim um alicerce de segurança. Uma alteração inesperada pode gerar um colapso interno, uma vez que o cérebro precisa processar uma enxurrada de novas variáveis. Em pessoas que também lidam com a impulsividade do tdah, essa ruptura pode levar a crises ainda mais agudas de desorganização e estresse.
2. Barulhos e Luz Forte: A Guerra Sensorial
A hipersensibilidade sensorial é uma realidade. Um ambiente com ruídos altos ou iluminação fluorescente intensa não é apenas desagradável; é fisicamente doloroso. Essa sobrecarga constante é um dos maiores combustíveis para a ansiedade, principalmente quando a pessoa já tem uma dificuldade inata de filtrar informações, algo comum no deficit de atencao.
3. Texturas Desagradáveis: O Desconforto na Ponta dos Dedos
Seja a costura de uma meia, a textura de um alimento ou a consistência de uma tinta, o toque pode ser um gatilho poderoso. Essa aversão não é manha, mas uma resposta neurológica genuína que, ignorada, contribui para um estado de alerta constante.
4. Dificuldade em se Comunicar: A Angústia de Não Ser Compreendido
A comunicação vai muito além das palavras. A dificuldade em expressar necessidades ou interpretar nuances sociais (ironia, duplo sentido) gera uma frustração imensa. Quando somamos a isso a agitação interna da hiperatividade, o resultado pode ser um desespero silencioso por não conseguir externalizar o que se sente.
5. Excesso de Informações: O Colapso do Processamento
Vivemos na era da informação, mas para o cérebro autista, e muitas vezes também para o cérebro com tdha, processar múltiplos estímulos simultâneos pode levar ao “derretimento” (shutdown). É como ter dez guias abertas no navegador, todas tocando vídeos ao mesmo tempo. A ansiedade surge como uma tentativa do corpo de pedir para esse fluxo cessar.
6. Conflitos Interpessoais, Discussões ou Críticas
A dificuldade em lidar com conflitos é imensa. Enquanto uma pessoa neurotípica pode “deixar pra lá”, a mente autista pode ruminar o ocorrido por dias, analisando cada detalhe. Receber críticas, muitas vezes, soa como uma invalidação do seu esforço em tentar navegar em um mundo que não foi feito para ele.
7. Dificuldade em Lidar com o Desconhecido
Se a mudança de rotina é difícil, o desconhecido absoluto é paralisante. A impossibilidade de planejar ou prever desencadeia um medo profundo. Esse cenário é particularmente desafiador para quem tem deficit de atencao, pois a falta de um “mapa mental” do futuro dificulta a organização dos pensamentos e tarefas.
8. Situações Sociais Desconfortáveis, Especialmente com Desconhecidos
O medo do julgamento, a pressão para manter contato visual ou para seguir o fluxo de uma conversa sem um script definido são exaustivos. Para uma pessoa com tdah, a combinação da ansiedade social com a dificuldade de manter o foco na conversa pode criar um ciclo de constrangimento e estresse difícil de quebrar.
A Importância do Olhar Integrado
Compreender esses gatilhos é o primeiro passo para a construção de um ambiente mais acolhedor. Seja em casa, na escola ou no trabalho, pequenas adaptações podem transformar a experiência de vida de uma pessoa autista, especialmente quando há comorbidades como o TDAH.
Se você se identificou com esses pontos, lembre-se: buscar informação e apoio especializado é fundamental. O autoconhecimento, aliado a estratégias de manejo da ansiedade, pode devolver a qualidade de vida e a autonomia. Afinal, mais do que “lidar” com o mundo, toda pessoa merece o direito de vivê-lo com leveza e pertencimento.
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Conclusão: O que ninguém te conta sobre a ansiedade no autismo
Depois de tantas histórias, estudos e observações — inclusive as do meu próprio neto, com seus pés que flutuam e sua mente que voa — chego a uma conclusão que incomoda:
“A sociedade não está preparada para mentes atípicas. E o pior: nem percebe isso.“
Dizem que a criança autista “tem crises do nada”. Mentira. Não existe crise do nada. Existe acúmulo. Existe um mundo barulhento demais, invasivo demais, rápido demais para quem processa a vida em alta definição.
Meu neto não anda na ponta dos pés porque quer ser diferente. Anda porque o chão arde. Ele não troca de vídeo em segundos porque é “agitado demais”. Troca porque seu cérebro absorve em instantes o que o nosso leva minutos para processar.
Ele sabe todas as capitais do Brasil e do mundo não por acaso — mas porque, num mundo caótico, a geografia oferece algo precioso: ordem. Previsibilidade. Respostas certas.
E sabe o que é mais chocante?
Enquanto eu escrevo isso, milhares de crianças autistas estão sendo chamadas de “difíceis”, “mal-educadas” ou “teimosas” em escolas, consultórios e até dentro de casa. Estão sendo forçadas a baixar os calcanhares, a desviar o olhar, a se encaixar em um molde que não foi feito para elas.
E estão sofrendo no silêncio deles.
A ansiedade no autismo não é um “transtorno de comportamento”. É um grito. É o corpo dizendo: “Isso dói. Isso aperta. Isso é demais para mim.”
A pergunta que fica não é “como fazer meu filho parar de ter crise”.
A pergunta é: o que estamos fazendo para que ele precise gritar?
Meu neto me ensinou que inteligência não tem formato único. Que andar na ponta dos pés pode ser uma forma de dançar com o mundo. Que decorar capitais não é “frescura”, é paixão. Que agilidade não é falta de foco — é foco em outra velocidade.
Obrigado pra você que leu até aqui, faça algo hoje: olhe para uma pessoa atípica não com pena, não com julgamento, mas com a pergunta certa:
“O que você está tentando me dizer que eu ainda não aprendi a ouvir?”
Porque no fim das contas, a ansiedade deles é o espelho do nosso fracasso coletivo em acolher. E isso, sim, é de partir o coração.
Perguntas Frequentes sobre Ansiedade no Autismo
1. O que desencadeia crises de ansiedade em crianças autistas?
As crises de ansiedade no autismo geralmente são desencadeadas por sobrecarga sensorial (barulhos, luzes fortes, texturas), mudanças inesperadas na rotina, dificuldades de comunicação, excesso de informações, conflitos interpessoais e situações sociais desconfortáveis.
2. Andar na ponta dos pés está sempre relacionado ao autismo?
Andar na ponta dos pés é um sinal comum no autismo, mas não exclusivo. Muitas crianças autistas apresentam essa característica como forma de regulação sensorial ou por hipersensibilidade tátil. O importante é observar o contexto e outros sinais. Quando associado a outros comportamentos como dificuldades sociais, hipersensibilidades e interesses intensos (como decorar capitais de países), pode indicar a necessidade de avaliação especializada.
3. Qual a diferença entre autismo e TDAH?
Autismo (TEA) afeta principalmente a comunicação social, interação e comportamentos (como interesses restritos e hipersensibilidades). Já o TDAH é caracterizado por desatenção, impulsividade e hiperatividade. Porém, é muito comum haver sobreposição: estima-se que 30 a 50% das pessoas autistas também apresentam características de tdah ou deficit de atencao. O acompanhamento multidisciplinar é essencial para diferenciar e tratar corretamente cada condição.
4. Crianças autistas podem ter memória impressionante?
Sim! Muitas pessoas autistas desenvolvem memória excepcional para áreas de interesse específico, como meu neto que sabe todas as capitais do Brasil e do mundo. Esse fenômeno, chamado de hiperfoco, permite que a criança absorva e retenha informações detalhadas sobre temas que despertam seu interesse genuíno, demonstrando que o autismo também vem acompanhado de habilidades extraordinárias.
5. Hiperatividade e autismo podem ocorrer juntos?
Sim, é muito comum. A combinação de autismo com hiperatividade pode tornar o diagnóstico mais complexo, pois a criança pode apresentar tanto as dificuldades sociais e sensoriais do autismo quanto a impulsividade e agitação do TDAH.
“As observações pessoais compartilhadas neste artigo encontram respaldo na literatura científica internacional e brasileira, demonstrando que a vivência de famílias atípicas está alinhada com as evidências acadêmicas mais recentes.”
Referências Científicas
Este artigo foi baseado nas seguintes fontes acadêmicas e científicas:
- CANALS, J.; MORALES-HIDALGO, P.; VOLTAS, N.; HERNÁNDEZ-MARTÍNEZ, C. Prevalence of comorbidity of autism and ADHD and associated characteristics in school population: EPINED study. Autism Research, v. 17, n. 6, p. 1276–1286, 2024.
- SOKOLOVA, E. et al. A Causal and Mediation Analysis of the Comorbidity Between Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) and Autism Spectrum Disorder (ASD). Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, n. 6, p. 1595–1604, 2017.
- OLIVEIRA, A. G. B. et al. Quando o TDAH e o TEA coexistem em crianças e adolescentes: uma revisão sistemática. Revista Conexão UEPG, v. 21, e25533, 2025.
- SILVA, M. M. et al. Comorbidades no Transtorno do Espectro Autista: foco no Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e intervenções para o desenvolvimento das funções executivas. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 12, n. 1, p. 1–12, 2026.
- MACHADO, A. F. R. et al. Autismo: comorbidades e condições associadas. Revista Contemporânea, v. 4, n. 5, e4420, 2024.
- HERVÁS, A. Trastornos del espectro autista, trastornos por déficit de atención hiperactividad y desregulación emocional: enmascaramiento y abordaje. Medicina (Buenos Aires), v. 84, supl. 1, p. 43-49, 2024.
- AGUIAR, A. K. A. et al. Comorbidades psiquiátricas associadas ao transtorno do espectro autista em crianças atendidas em um centro especializado no município de Santarém, Pará, Brasil. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 25, e18673, 2025.
- CHIODI, S. L. Aspectos cognitivos e comportamentais em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. 2024. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2024.
Para as outras referências brasileiras
A maioria dos artigos científicos brasileiros está disponível em:
- Google Acadêmico (scholar.google.com.br) → basta digitar o título do artigo
- SciELO (www.scielo.org) → plataforma científica brasileira
- Revistas científicas específicas → como “Revista Contemporânea“, “Revista Ibero-Americana“, etc.
“As referências marcadas com 🔗 estão disponíveis online para consulta.”
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